Dialogicidade:Tema central da pedagogia do oprimido.

 

O ensaio, que se segue, possui como base a obra “Pedagogia do Oprimido” do educador pernambucano Paulo Freire (1921-1997), compreendemos que um breve conhecimento sobre o contexto histórico/social no qual a obra resenhada foi produzida nos permitirá, desde já, um entendimento das categorias e conceitos apresentadas e defendidas pelo autor.

O ano de conclusão do trabalho em questão foi 1968, ano o qual muitos historiadores e pesquisadores defendem como o ano do “golpe dentro do golpe”: A democracia brasileira derrubada em 1964, a partir de um golpe civil-militar era sepultada de vez com o Ato Institucional número 5 (AI-5), expediente que aprofundou as perseguições e restrições de direitos; Já nesse ano (1968) estava no seu exílio político no Chile trabalhando com educação junto a trabalhadores rurais, é nesse contexto de esperança em um modelo de educação que supere contradições e receio pelos rumos de seu país que o livro-tema desse ensaio foi concluído.

A obra de Paulo Freire (assim como sua práxis como pedagogo) é permeada pela busca da “Humanização”, mas o que significa o termo? O que faz com que a humanidade se “desumanize”? Trabalhando a partir da categoria alienação (presente na obra de Karl Marx) o autor a expande entendendo que, na sociedade capitalista as atividades que potencialmente nos diferenciam dos outros seres vivos (o trabalho, a educação, as relações pessoais/sociais) são esvaziadas de seu sentido original e emancipatório sendo instrumentalizadas visando a reprodução social das relações capitalistas.

O educador brasileiro propõe uma superação do modelo “conteudista”, onde o aluno é um mero receptáculo daquilo que lhe é transmitido, esse modelo (que Paulo Freire define como educação bancária) é ao mesmo tempo produto e força reprodutora da relação oprimido x opressor, presente, principalmente, na formação histórica/social de países da periferia do sistema capitalista.

A dinâmica da relação oprimido x opressor é outro ponto importante a ser destacado; Nos aponta, o autor,  como o processo de construção de uma falsa consciência ocorre, fazendo com que setores oprimidos dentro de determinada dinâmica social comecem a esposar e reproduzir idéias e conceitos condizentes com os interesses de seus opressores. A libertação dessa “armadilha consciencial”, que aprisiona tanto os oprimidos como opressores, se dá a partir de um modelo de educação no qual um processo dialógico é desenvolvimento em detrimento dos modelos ''magistocêntricos'', aqueles nos quais apenas à figura do professor/gestor é dada destaque; Em uma sociedade construída a partir de processos históricos excludentes e fundamentalmente antidemocráticos (como a brasileira) a proposta de uma educação que permite a expressão de todos os sujeitos envolvidos, superando a hierarquização engessada, que reproduz esse histórico de silenciamento, soa como potencialmente revolucionária.

A obra do educador brasileiro avança, e ele nos apresenta modelos/propostas de processos pedagógicos  que estimulam a participação, dos alunos desde a coleta de dados até as inúmeras estâncias avaliativas e deliberativas;A proposta apresentada é submetida a constate análises e eventuais correções de rumo são adotadas, sempre levando em consideração as opiniões de todos os agentes envolvidos.

A dialogicidade é estimulada e desenvolvida a partir da escolha do tema gerador, tema esse que é utilizado levando-se em consideração as práticas de vida do grupo de alunos, essa opção pelo tema gerador também deverá ser construída com a participação de todos os envolvidos.

A humanidade, na visão freireana, está sempre em busca de um vir a ser, todos temos um determinado nível de consciência sobre o período histórico/social vivido, assim como das contradições desse período, que nos impede de caminharmos na direção de um pleno desenvolvimento das inúmeras potencialidades.

A educação emancipatória têm como objetivo refletir sobre essas contradições impeditivas e a partir de um olhar (postura) crítica avançar nas suas superações, não há separação entre aquilo que se diz e aquilo que se faz, a práxis é central na construção proposta de Paulo Freira, como ele bem nos ilustra com exemplos de sua atuação junto aos "esfarrapados do mundo''.

A descoberta dos indivíduos enquanto agentes ativos em suas realidades sociais é a principal contribuição (não a única) que a pedagogia do oprimido pode proporcionar, essa contribuição chega a todos os envolvidos nesses processos, irmanados e conscientes da possibilidade de construção de novas formas de sociabilidades onde, o desenvolvimento dos interesses coletivos é premissa básica para o desenvolvimentos das potencialidades dos sujeitos.

A educação proposta pelo autor, com seu caráter inclusivo, democrático e participativo, em sociedades onde historicamente interditaram a atuação política dos setores subalternizados demonstra um claro potencial revolucionário, não à toa Paulo Freire continua sendo atacados por setores que não têm interesse na mudança desse quadro. A despeito desses ataques a disputa pelos rumos da educação (e da sociedade) permanece, tendo em mente a necessidade de possibilitar ao conjunto da sociedade uma forma de se enxergar como seres autores de sua própria história.

 


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